O que os quadrinhos nos dizem sobre a história da infografia

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Três anos separam as seguintes produções do jornal O Globo:

O Globo. 02/03/94, p.8
O Globo. 02/03/94, p.8
05.03.97_p.15
O Globo. 05/03/97, p.15

 

Apesar da limitação evidente, os quadrinhos contam parte importante da infografia no Brasil, e por várias razões.

Uma delas é a sua recorrência. Dos 37 registros em nossa pesquisa no jornal O Globo dos meses de março e julho de 1994, por exemplo, dez são quadrinhos – pouco mais de um quarto, número muito significativo.

Os quadrinhos, como recurso gráfico a contar uma história jornalística, não se comparam aos infográficos ou até mesmo a suas versões simplificadas, os protoinfográficos, por uma razão muito simples: eles são meramente ilustrativos. Qual é o valor informativo daquele sequestro ou daquele acidente ou daquelas pessoas nos exemplos acima?

Mesmo assim, os quadrinhos não deixam de ser muito, muito importantes, pois fornecem uma série de subsídios que nos ajudam a entender o processo de difusão e de evolução no uso da infografia na imprensa brasileira.

Por que eles são usados com tanta frequência e por tanto tempo permanecem inalterados? Provavelmente por se tratar de um recurso que utiliza um formato, tanto visual quanto de linguagem, já pronto. Os quadrinhos não demandam mais do que uma pessoa.

Quase todas as vezes eles ilustram matérias policiais; reproduzem uma série de perseguições, assaltos, trocas de tiros. Material imediato, que demanda rapidez de produção – de um dia para o outro, a arte tem que estar pronta. É diferente dos infográficos mais elaborados da época, que retratam temas principalmente de ciência, mais “frios” e flexíveis no tempo de execução. Para acompanhar a notícia, fazia-se necessário um recurso visual rápido: eis os quadrinhos na narrativa noticiosa.

O uso dos quadrinhos, portanto, parece estar ligado à necessidade de rapidez, de um lado, e à limitação tecnológica para atendê-la, de outro. Em outras palavras: eles forneciam saída possível para uma demanda visual crescente – e existente há no mínimo vinte anos.

Interessante notar também que já havia na época a percepção de que os quadrinhos, como linguagem no jornalismo diário, eram limitados. Daí a tentativa crescente de aliá-lo a outros recursos, como os mapas, e de dispô-los de maneira mais elaborada (exemplos abaixo).

Será importante demarcar, no decorrer na pesquisa, quando esse importante formato cai em desuso. O que os dados por ora nos indicam é de que isso ocorrerá com o avanço tecnológico e a estruturação das equipes de infografia nos jornais, características que parecem caminhar de mãos dadas. A confirmar.

O Globo. 10/03/94, p.19
O Globo. 10/03/94, p.19
O Globo. 18/03/94, p.10
O Globo. 18/03/94, p.10