Quando um Dataviz confunde mais do que esclarece

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Infografia e Dataviz (Visualização de Dados) são um importante meio jornalístico para esclarecer e detalhar fatos e informações ao leitor. Neles, são usados diversos elementos em cada situação específica, sejam gráficos, tabelas, ilustrações ou textos. Porém, algumas dessas peças não conseguem exercer uma de suas funções primordiais, que é fazer com que o leitor compreenda a mensagem que está sendo transmitida. É o mau infográfico. Pode ser uma peça visualmente atraente, mas que não comunica com qualidade e precisão – é bonito, mas não funciona; pode ser uma peça que contenha toda a informação necessária, mas distribuída de modo confuso, ineficiente; e pode ter baixa qualidade tanto na sua imagem como no conteúdo que a peça se propõe a esclarecer. Neste caso, o melhor é apagar tudo e começar de novo.

Ombudsman FolhaNa seção do Ombudsman do jornal Folha de S. Paulo de ontem, havia uma nota sobre uma peça de Dataviz sobre a migração de políticos entre os partidos. A semana passada foi bastante movimentada neste assunto, já que dois novos partidos conseguiram aprovação no STF para oficializar suas siglas. Nas eleições gerais do ano que vem, o Partido MIlitar Brasileiro (PMB) e o Partido Republicano da Ordem Social (PROS) já poderão lançar candidatos. A peça gráfica do jornal buscou trazer portanto, as possíveis permutações de militantes dentro das legendas. Escolheu-se apenas os deputados federais para compor os números do gráfico, que foram divididos pelas bancadas dos partidos, de um lado os que apóiam o governo e do outro, os contras. Através de linhas, o gráfico ligava os partidos atuais aos partidos de destino de alguns deputados. Usando apenas duas cores, e muitas linhas cruzadas, o resultado final é confuso. A sobreposição de dezenas de linhas cruzadas faz o leitor se perder em meio aos elementos presentes. Algumas informações conseguem ser comunicadas, como por exemplo, a quantidade de deputados que mudarão radicalmente sua posição em relação ao governo federal, de oposicionistas a aliados (ou vice-versa).

A crítica do ombudsman veio ao lado da reprodução do Dataviz com um toque de ironia, afirmando que a peça talvez funcionasse se estivesse exposta como uma obra de arte no Museu de Arte Moderna, o que não é o caso de uma peça de infografia de um jornal. Esta vem com o objetivo de auxiliar o entendimento de informações referentes a reportagens ou notícias, ou de comunicar alguma mensagem independentemente. Alguns infografistas parecem se preocupar mais com a aparência da peça do que com a apuração dos fatos, esclarecimento das informações ou a com uma eficiente organização visual dos dados. O jornal The Guardian, por exemplo, reuniu no mês passado dezesseis peças gráficas, dentre infográficos e Dataviz, que proporcionaram pouco ou nenhum entendimento das informações que trouxeram. As peças, bastante variadas entre si, trazem diversos exemplos de como NÃO se deve fazer um infográfico.

Uma peça publicada no próprio jornal, mostra dois mapas da Inglaterra. O objetivo aqui é saber se as piores escolas estão realmente nas áreas mais pobres. O resultado porém, não chega ao seu próposito. No mapa da esquerda, o país divide-se em distritos e no da direita, a divisão é feita por zonas eleitorais. As cores da legenda não correlacionam os dados de modo coerente. Uma peça, como o próprio jornal definiu, constrangedora.

Mapa The Guardian

Já no gráfico abaixo, o problema que se destaca inicialmente é a desproporção dos elementos. Enquanto cerca de 43 mil enfermeiros são simbolizados por um conjunto de elementos gráficos simbolizados por quatro pessoas alinhadas, como um aumento de 4 mil enfermeiros pode adicionar mais 36 pessoas no gráfico? Esse tipo de erro é usado, em não raras vezes, para induzir o leitor deliberadamente, o que não sabemos se foi o caso aqui. Mas sabemos que escalas existem para serem usadas.

Contratação de enfermeiros

 

As demais peças criticadas pela reportagem do jornal The Guardian podem ser acessadas neste link.

O site Best Infographics também reuniu e comentou algumas peças que não podem ser chamadas de bons infográficos, e você pode acessá-los aqui.

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